Bestiário

Bestiário
Lais Myrrha
Vídeo HD
4:3, 40:33 min, cor, som
2005

O video Bestiário é produzido a partir da sobreposição de sete edições do telejornal de maior audiência no Brasil, o Jornal Nacional da TV Globo. Nessa sobreposição de sons e imagens, a única fala que se escuta em uníssono é a chamada: “agora, no jornal nacional”. Assim como em outros projetos, Lais investiga nessa obra instrumentos e saberes que constroem nossa experiência no mundo a partir do lugar que nele ocupamos. Dicionários, mapas, bandeiras, hinos, jornais e telejornais são alguns dos elementos sobre os quais a artista articula suas obras.  

A Besta do Bestiário

Até que ponto pode a mídia brasileira, com a Globo e o seu Jornal Nacional, desresponsabilizar-se pelo que se passa hoje, em 2021, no Brasil? Esconder-se atrás da ‘força’ dos acontecimentos, de uma ‘lógica’ flutuante de interesses (ainda que essencialmente fixa), até da própria ‘deontologia’, onde se cospe para o ar (como se não fosse na testa que lhes caísse) concepções como a de ‘serviço público’?

O que mais me impressiona neste Bestiário da Lais nem é o que talvez se lhe propusesse como contraponto, um noticiário mais ou menos digno desse nome, que informa, esclarece, debate, reflete, etc., ou, pelo menos, que não legitima ditaduras, promove impeachments, assobia para o lado quando acorda no fascismo, mas algo de outra natureza inteiramente, o fato de que, enquanto verdadeiros Bestiários, jornais nacionais são lugares, ou melhor, não-lugares, de impossibilidade, verdadeiros abismos, com camadas e mais camadas de barulho, de lixo, de nada, onde se fala sem fim sobre acontecimentos, mostrando-os em imagens, só para garantir que, no Brasil pelo menos, eles jamais aconteçam, que o Brasil jamais esteja, de fato, à altura de um acontecimento. É como se a função do Bestiário fosse precisamente cavar e cavar, uma campa atrás da outra, criar buracos o quanto mais sem fundos melhor, para que neles, a não ser que seja por um milagre qualquer (linguagem que o Bestiário conhece bem), se consiga sair.

O que é um acontecimento? Pode dizer-se que as ruas de 2013 foram um acontecimento? Se foram ou não, pelo menos resta a certeza que o Bestiário respondeu fazendo o que faz muito bem, que é esburacar, esvaziar, desinscrever, nadificar, garantir que, se por acaso aquilo foi um acontecimento, que a superfície que o susteve, ainda que durante um brevíssimo período, se perca em camadas e camadas do que quiserem, desde escutas de tão recortadas que até o dedo se perde, sublinhados que mais parecem triturar o papel onde as palavras foram escritas, até imagens da ‘baderna’ , isentas como a luz do dia, fornecidas pela própria polícia, ou, claro, os crimes do dia a dia, os casos de corrupção como pão nosso, a mais pura imbecilidade como obra do espírito santo, o que vocês quiserem, cassinos de todas as chácaras, tudo na condição que o resultado, o efeito, seja o de sempre, o de fazer sentir que nada é verdadeiramente possível, que só o impossível realmente é rea.

Em que sentido é este Bestiário da Lais (que é de 2005) de uma atualidade radical? Seria preciso acrescentar a relação do Bestiário com a sua Besta. O que acontece quando o Bestiário, após décadas de fazer o que faz, difundir sobreposições e mais sobreposições de impossibilidade, de apagamento de qualquer vislumbre de inscrição, numa morte infindável, encontra finalmente, como se não o esperasse, a Besta que ele próprio, precisamente enquanto Bestiário, sempre pressupôs? Acorda um dia na cama com a sua própria Besta? Com uma Besta que deseja de tal maneira suicida o que o Bestiário sempre produziu, um buraco de não-inscrição, de impossibilidade, de nada, que é o próprio Bestiário que parece soluçar, sem solução aparente, como se sentisse finalmente tremer o buraco que produz dia após dia? Tremer com a voz buçal da sua Besta, que empurra palavras por entre os dentes? Com o ecoar infinito da sua voz no interior do abismo escavado a cada Jornal Nacional?

É como se, anos antes da Besta, a Lais, com o seu Bestiário, já o pressentisse, pressentisse como a Besta bestalizaria o Bestiário, mas também, e crucialmente, que havendo ‘saída’, linha de fuga possível, ela seria, talvez, uma linha, um possível, que consegue aproveitar este enfrentamento, do Bestiário com a sua Besta. Ou seja, se o Bestiário é a produção de impossibilidade, a Besta é esta impossibilidade realizada, tão realizada que até o Bestiário se assusta com as suas realizações, temendo e tremendo, acuado como um animal ferido, com o novo Bestiário que a Besta quer
instituir, de paranóia, fake news, obscuridades e transcendências de todas as estirpes. Enfim, com um Bestiário ainda mais realizado que o seu, o do Jornal Nacional, da Globo, o Bestiário, desta vez, da própria Besta, que se espalha, num pestanejar de olhos, como o verdadeiro vírus, sem qualquer ‘barreira sanitária’ , no Facebook, no WhatsApp e afins.

O que fazer? Pelo menos, antes de mais, parece importante colocar o problema em termos do desejo, que é o que me parece que este Bestiário da Lais faz. Perde-se o essencial quando se pensa este problema, o do Bestiário e da sua Besta, em termos de interesses (seja do agronegócio, das igrejas evangélicas, das milícias ou do que for). Não é ao nível consciente ou até do pré-consciente que o problema se coloca, mas em termos, mais diretamente, do inconsciente. Enquanto Bestiário, o Jornal Nacional, os jornais nacionais, desejam, como projeto maior da camiseta verde e amarela, o próprio impossível, a instituição eterna no Brasil da impossibilidade de um acontecimento, da impossibilidade de uma superfície, por mais frágil que seja (não é isso que se festeja, também, matando Marielle?). Que agora apareça a Besta que este Bestiário sempre pressupôs só confirma a realização do próprio Bestiário, o seu encontro com a realidade que, inconscientemente pelo menos, sempre desejou, e que esta obra da Lais revela tão bem. A Besta só realiza o desejo do Bestiário, só revela ao próprio Bestiário o ‘real’ do seu desejo, por mais que esta Besta, que é sua, do Bestiário, ainda que recalcada enquanto tal, os assuste.

Seria preciso dizer, com Maria Bethânia e a sua belíssima Carta de Amor, que o que é do Bestiário já estavava guardado, o homem que “pisa a terra mas não a sente apenas pisa” , que “está tão mirrado que nem o diabo [o] ambiciona”, que sem alma é “o oco do oco, do oco, do sem fim do mundo”. Poderá o Bestiário responsabilizar-se pela sua Besta? Virar-se para ele e dizer:

“Onde vai, valente?
“Você secô, seus olhos insones secaram
Não vêem brotar a relva que cresce livre e verde, longe da tua cegueira
Seus ouvidos se fecharam a qualquer música, qualquer som
Nem o bem, nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe”.

É improvável. Em todo caso, entre o Bestiário e a sua Besta, o seu enfrentamento desalmado, afundado, sem-fundo, besta, há o que se poderá aproveitar dele, como se andássemos num lixão à procura de uma linha, torcida, torta, tortuosa, mas que vá de um ponto a outro. É isto que sinto que a Lais já nos diz, anos antes da Besta, pressentindo a sua atualidade no Bestiário, como se nos desse o próprio Bestiário do ponto de vista do seu inconsciente. O que fazer? Talvez cantar, começar cantando, com a Lais, a Maria Bethânia,

Mexe não
Não mexe comigo que eu não ando só
Eu não ando só, eu não ando só.
Não mexe comigo.

Filipe Ferreira
Lisboa, 10 de agosto, 2021

Lais Myrrha é uma artista brasileira, Mestre pela na Escola de Belas Artes, da UFMG (2007). Lais tem participado ativamente de mostras no Brasil e exterior, com destaques para a 8a Bienal do Mercosul, 18o Festival Videobrasil, 32a Bienal de Arte de São Paulo, Condemned To Be Modern | PST: LA / LA, 12a Gwangju Biennale e 13a Bienal La Hababa. Em 2021, ela apresentará um novo projeto de ocupação do Octógono da Pinacoteca do Estado de São Paulo.  

Filipe Ferreira é Mestre em Filosofia pela New School for Social Research e Doutor em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa. Atualmente é pesquisador no Programa de Estudos Pós-Graduados em Filosofia da PUC-SP.