Licantropia

Licantropia
DCP, 27 min, cor / pb 
2019
 
Produzido por Le Fresnoy-Studio national des arts contemporains
Le Fresnoy-Studio national des arts contemporains est financé par le Ministère de la Culture et de la Communication, la Région Hauts-de-France, avec la participation de la Ville de Tourcoing. les équipements techniques ont été cofinancés par le FEDER (Fonds Européen de Développement Régional) Copyright © Janaina Wagner – Le Fresnoy-Studio national – 2019 tous droits réservés
O filme Licantropia, de Janaina Wagner, se desenvolve como um ensaio sobre a expiação da figura do lobisomem, criatura moldada como bode expiatório para dar contorno a atos cruéis perpetrados pela humanidade ao longo da história. Narrado pela lua durante o curso de uma noite, diferentes alusões do lobisomem são incorporadas por um lobo, uma mulher e um homem. Combinando ficção e documentário, o filme é composto como uma colagem de diferentes tipos de imagens: 16 mm, internet, gravuras, trechos literários e testemunhos anônimos. O lobisomem, ser híbrido, opera transitando em torno dos limites da realidade e da invenção, da mentira e da verdade, da história das estórias: é um amálgama que funde numa única imagem o humano e o animal, operando como ponte acessível para investigar processos civilizatórios de dominação através da história.

Nota: Em relação à aplicação do termo “travestido de Dor” no poema “Lobisomem” (1947) de Décio Pignatari, gostaríamos de manifestar que a aplicação do poema no contexto do vídeo não visa reiterar o uso deste termo de cunho transfóbico. Reconhecemos a travestilidade em sua essência política, poética e existencial. Gostaríamos também de convidar a todes, a partir desta discussão, a conhecer as existências de Ode e Maria Clara Araújo, dentre outras artistas e pesquisadoras cujo trabalho se debruça nesta questão.

O NOME DO SÉTIMO FILHO

Por  Guilherme Teixeira

 

O lugar de um corpo dentro do outro é engraçado, você não acha? O quê? Você ouviu isso? De Paris à Budapeste, algo se perde na floresta amazônica, se faz nome de noite e de árvore, também dorme, ou finge um dormir doméstico que não dá conta do real intento e impulso da mão, da garra, da carne, da noite, da cama, do sono; algo dele só existe lá – e aqui é longe demais.

 

Foi nas mãos de uma bruxa mexicana que uma hiena arrancou um rosto e o vestiu durante uma quinceñera, não? Somos canis, hyaenidae[1]? Hoje, no início da segunda década do século XXI, não me vejo mais receio ou assombro, sobressalto ou parcela de medo. Me recuso a ser assombro. O quê? Você ouviu isso? Já tentaram destruir tudo demais, você não acha?

 

A espécie não cabe mais em mim, já não do que derivo ou porquê: algo deles não tem medo, eu tampouco. Não, não me lembro como vim parar aqui. Acho que alguém me depositou, todo receio, negando a fila indiana de machos que vazaram no mundo. É doce se destacar da espécie, você não acha? O quê? Você ouviu isso?

 

Meio resto de meia dúzia, meio acúmulo da insuficiência dos outros. Hoje é quinta-feira e, dependendo do calendário, também pode ser o empilhamento de ciclos ou o desígnio de uma pessoa, mesmo que ela esteja sentada no escuro. Que cheiro é esse? Precipitação. Engraçado, você não acha? Como as nuvens se empurram.

 

Erosão: algo esquece que as montanhas só deixam de ter massa, e a água e o vento acumulam e circulam os grãos que tomam dela seja para o fundo dos oceanos, seja para o aberto dos nossos olhos. LES LOUP SONT ENTRÉS DANS PARIS[2] – algo na língua não dá conta. Hoje é quinta-feira e um buraco se arrebenta pelo uso da manhã. Dentro dele, metade resíduo, metade cidade, metade escuro. Não é a primeira vez que cede, você não acha? O quê? Não ouvi nada.

 

Já é verão? Não confio em termômetros. Tenho medo de capotes e parques hoje. Não sei do limite do calor do meu corpo e hoje é quinta-feira e me recuso a olhar para o céu; não importa, pois a espécie não cabe mais em mim, ou seja, não é minha responsabilidade o futuro evolutivo da nossa fisiologia e LES LOUPS SONT ENTRÉS DANS PARIS, e algo nessa cidade também se recusa a apagar. É constitutivo o lugar do escuro, você não acha? Sente isso?

 

Cestrum nocturnum[3]. Sinto, mas não vejo. Guio-me pelo escuro, as lâmpadas jogando luz em superfícies. Porém não é sobre a hierarquia dos sentidos, nem sobre não caber em uma espécie. 

 

É tudo empilhamento. Nunca foi noite.

 

[1] Canis é um gênero da Caninae que inclui várias espécies, como lobos, cães, coiotes e chacais dourados. A família Hyaenidae contém quatro espécies, relacionadas com os lobos-da-terra e hienas.

[2] Les loups son entrés dans Paris – “Os lobos entraram em Paris”, trecho da canção de 1967 interpretada por Serge Reggiani

[3] Cestrum Nocturnum – Nome científico da flor popularmente conhecida como Dama-da-Noite.

 

 

Janaina Wagner (São Paulo, Brasil) desenvolve suas pesquisas em diversas mídias, como vídeo, fotografia, livros, desenho, instalações, cenografia e pintura. Seu trabalho aborda as relações de limite, controle e contenção que o homem estabelece com o mundo. Atualmente em residência no Gasworks (UK), Janaina é doutoranda no Le Fresnoy-Studio National des Arts Contemporains (FR). Dentre as principais exposições, destacam-se as individuais With burning love – (Villa Belleville, Paris), Criatura (Oficina Cultural Oswald Andrade, SP), e Decupagem/ Crônica de um final anunciado (MARP, SP); e as coletivas Ensaio de Tração – Pinacoteca do Estado de São Paulo, 10 Semana de Cinema do Rio de Janeiro, Bestiário – Centro Cultural São Paulo – CCSP, Permanências e Destruições – Torre H (RJ), Hipótese e Horizonte – Observatório (SP), 4o Prêmio EDP nas Artes – Instituto Tomie Ohtake (SP). Janaina vive e trabalha entre São Paulo e Paris.  

 

Guilherme Teixeira (São Paulo, Brasil) é escritor, curador e editor. Ele aborda em sua pesquisa enunciações e outros nomes que as coisas demandam hoje. Dentre as instituições com as quais trabalhou destacam-se CCSP, Videobrasil e Pro Helvetia, além de galerias e escritórios de consultoria em arte. Entre suas curadorias destacam-se PAREDÃO [CCSP], Ontem Foi Um Dia Longo [MARP], O Grande Susto [ESPAÇO], Ruído e Ausência Contínuos e A Imensa Preguiça [ambas na Galeria Sancovsky], Notas sobre alguma disfuncionalidade [Homeostasis.Lab]. Teixeira é também editor do periódico O TURVO, curador e editor do projeto “,expresso”, criado junto a Secretaria de Justiça de São Paulo e que oferece iniciação artística a jovens egressos da Fundação Casa em liberdade assistida.