O FIM DO TRABALHO

 

Vídeo Instalação em 3 canais, 2019
Vídeo HD, som, cor, 20'30″

 

Direção Beto Shwafaty
Montagem Patrik Thomas
Musica Thingamajicks
Narração Samuel Fischer-Glaser

 

Material fílmico de arquivo proveniente do Archivio Storico Nazzionale Cinema Impresa (Itália)
Obra comissionado pelo projeto Beyond Archive (produção de CareOf, Milão), com o suporte do programa ORA!

 

Centrando-se no tema da “transformação do trabalho”, o novo vídeo de Beto Shwafaty toma como ponto de partida a comparação de aspectos conflitantes do material histórico e cinematográfico recolhido pelo Archivio Nazionale Cinema Impresa (Itália): as promessas do modernismo e da modernização industrial relacionadas às melhorias da vida, em contraste aos consequentes fracassos e transformações destas promessas enquanto dispositivos científicos e automatizados que questionam a presença de seres humanos no local de trabalho. Quais são os impactos destas transformações sobre o corpo, a subjetividade e a vida social dos trabalhadores? Quais são as transformações em termos de vida comunitária e de atividades produtivas para o ser humano, para as práticas de cuidados e o que vem sendo denominado como nova economia da atenção? O fim do trabalho se desenvolve como uma produção híbrida, situando-se entre o ensaio fílmico e a colagem em vídeo. Nele, a fusão destas ideias com textos, narrações, material de arquivo e trilhas sonoras em loop esboçam e articulam diversas atmosferas e leituras sobre estes assuntos.

Script


Narração vozes diferentes (1) (2) (3)
(Texto escrito sobre imagens)
Roteiro / Indicação para edição *

 

Preâmbulo
– Ainda posso sentir o cheiro do óleo que passava pelas máquinas. (1)
– Podemos nos lembrar do ruído vivo das coisas que se movem sobre os pisos de concreto. (2)
– Você sente falta de ouvir a vibração da eletricidade alimentando tudo? (3)
* Cenas da vida na fábrica, trabalhadores indo para a fábrica, crianças sendo cuidadas, pessoas na linha, linha de trabalho, de cuidados, de produção Ciclo de vida diário como um ciclo de produção

 

Trabalho
(Após a Grande Guerra Mundial, uma nova sociedade teve que surgir. Uma baseada em novos princípios e valores que deveriam impedir que forças autoritárias se levantassem novamente)
(Organização científica de trabalho baseada em dimensões humanitárias e culturais, destinada a formar novas unidades federativas foi imaginada como uma resposta)
(A organização científica do trabalho aliada à cultura moderna e ao cuidado social trouxe uma nova vida às pequenas cidades, preservando ao mesmo tempo suas áreas verdes e sua vida calma… longe da metrópole superlotada e do estilo de vida isolada que elas impõem)
– Se vemos uma fábrica como um bem comum e não como algo de interesse privado, então as transferências de propriedade, planos regulatórios, experiências sociais ousadas podem ser justificado. (2)
– Mas para conseguir isso, temos que fazer com que a fábrica e seu entorno nos apoiem economicamente. Então, pode surgir a ideia de uma comunidade humana e sociocultural. (1)
– E a economia que imaginamos contribuirá para o progresso material, enquanto acompanhará os sujeitos no desenvolvimento de sua personalidade e vocação. (2)
* Vida social em contraste com a vida fabril, fusão dos aspectos sociais e laborais da vida, promessas modernas de uma realidade melhor, confiança numa organização científica da realidade Todos os aspectos da vida estão implicados nesta nova economia comunitária. A economia imaterial assume a forma de relações abstratas, lazer, produção, atenção, cuidado, afeto
– Mas com o passar do tempo, o capital também mudou para outras áreas da vida… sobre nossos afetos, os atos de cuidado, sobre as experiências sociais e as relações humanas. (3)
– De fato, nossos desejos tinham se tornado as infraestruturas do capital tardio e simbólico. E esta forma de capital tem sempre uma relação oblíqua com os recursos materiais que são gerados pela mão de obra empreendida sobre nosso corpos. (2)
(O trabalho abstrato e as economias imateriais ficaram amarradas pelas relações informativas e socioculturais, à medida que a produção industrial se entrelaça com as culturais)
(E mesmo que surjam novas forças de trabalho, elas ainda são intrinsecamente parte do ciclo da mercadoria)

 

Instrumentum Mutum
* Mudança na matriz de produção, políticas acionadas por máquinas, precisão e eficiência, gastos humanos, estamos obsoletos
– Não vejo nenhuma ansiedade em relação à automação nos dias de hoje. Parece não ser notada. (1)
– Sim, não é uma tendência, todos já ao abraçaram. (3)
– Acredito que seja porque, à medida que avançamos em direção ao progresso, tecnologias lidam com o trabalho duro com maior eficiência a custos mais baixos. (1)
– É porque as máquinas unem todos os outros elementos do processo de trabalho: da matéria-prima ao procedimentos e o produto final. (2)
– As máquinas também são produtos. (3)
* Velocidade e ciclos de movimento, mãos e parafusos, detalhes de corpos e peças metálicas, cores, material, imagem e propaganda
– Resultam do resumo de muitas multidões, são conjuntos de diferentes instrumentos de trabalho… a maquinaria ativa-viva. (2)
– Eles ainda não sentem ou veem… podemos precisar deles, mas eu ainda não confio neles. (1)
– E daí? Nós também podemos fazer, e quase tudo com nossas próprias mãos… (3)
*Movimentos em loop e ritmo contínuo de fluxos
(A máquina irá erradicar a exploração?)
(Vemos o imóvel móvel)
(A força de trabalho em si mesma. A força de trabalho perfeita)

 

O Fim do Trabalho
(Os processos de liberdade: cooperação, colaboração entre nós, com as máquinas)
– A utilidade econômica humana tem um certo tipo de poder político, você não concorda? (2)
– Você ainda acredita nisso? (1)
– Sim. (2)
– Mesmo que uma alta porcentagem de empregos esteja em risco de ser substituída pelo “capital automatizado por computador”? (1)
– Eu não sei...(2)
– Quando sistemas materiais e físicos estão se fundindo rapidamente com sistemas digitais e biológicos, como podemos desafiar as oportunidades desta mudança tecnológica? (1)
– Vamos precisar descobrir isso. (3)
– Continuo pensando sobre qual será o propósito da vida sem trabalho… (1)
* Movimento sem fim, loop, promessas recorrentes e sonhos que nunca são realizados
(Eu faço, portanto sou)
(Tudo é trabalho)
(Qualquer coisa pode ser trabalho)
(E o que não é trabalho, pode ser cultura… Ou arte)
– Sinto falta do sentimento de amizade… essa garantia de que tínhamos uma base comum capaz de formar novas alianças, de fomentar coalizões. (1)
– Eu costumava gostar das atividades culturais após o trabalho. (3)
– Nossos colegas foram nossos primeiros aliados… Será que as máquinas também serão? (2)
– Somente se eles cantarem a canção – (risos) (3)
– Duvido disso. (1)

 

Além do Fim do Trabalho
* O capitalismo avançando sobre as mentes, os corpos, a educação como lócus de um futuro disciplinador
(Brincar é produzir, interagir é produzir)
(Ser é produzir)
Enquanto no passado as pessoas dedicavam suas vidas ao trabalho, hoje estamos nos tornando os produtos do trabalho de outra pessoa… A vida nua está se tornando responsável, mensurável, rastreável, comercializável. (2)
– Os empregos podem morrer, mas o trabalho sempre persistirá. O fato em jogo é o que fazer com uma quantidade exponencial de sujeitos deslocados devido às revoluções que virão através da automação, IA e outras revoluções digitais. (3)
– Acho que estamos em um beco sem saída. (1)
– A resposta será a automação fiscal? Para tributar os robôs para proteger os trabalhadores? (2)
– Você está se referindo ao chamado “dividendo de liberdade”? Será apenas mais uma promessa vazia de divisão da riqueza… talvez uma forma de manter os consumidores consumindo. (3)
– Acho que em breve precisaremos aprender novamente o que termos como “coalizão” e “cooperação” significam.
– Esta é uma boa pergunta. (2)
(Uma renda básica universal)
(Isso irá produzir uma revolução global na consciência, ou apenas manter a roda econômica funcionando?)

 

Epilogo
(” A máquina que possui habilidades e força no lugar dos trabalhadores, é ela mesma o virtuoso, com alma própria nas leis mecânicas, agindo através dela; e consome carvão, petróleo, etc. (matieres instrumental), assim como o trabalhador consome alimentos, para manter seu movimento perpétuo”. [Marx, Grundrisse, Notebook 7.] )
* Coletividade e cooperação, a captura da subjetividade
(As mãos estão obsoletas)
(A falha da máquina, será a falha de nossas mentes)

 

As linhas acima são indicações, anotações, ideias e provocações empregadas na edição e seleção do material de arquivo para a instalação de vídeo “o fim do trabalho”. Como uma espécie de roteiro e ensaio solto, o texto teve como objetivo desenhar eixos de ideias a serem transformadas em sequências de som-musica-imagem-texto que não necessariamente tiveram que ser materializadas inteiramente ou literalmente nas telas.

 

Diagrama Operativo

 

Entre 1930 e 1960, a empresa italiana Olivetti conseguiu uma simbiose única entre arte, indústria, técnicas de produção e comunicação para interferir, com a inventividade, na fusão entre economia, estética e política. Da indústria, ao urbanismo, passando pela arquitetura de interiores e serviços sociais, da concepção de produtos até a comunicação publicitária, a empresa e seus funcionários conseguiram criar um novo estilo, equilibrado diversas esferas tecno-sociais, sempre sob um compromisso com a valorização humana e a justiça social. Como exemplo da forma como a fábrica poderia contribuir para uma noção sociocultural de progresso, a Olivetti empregou muitos artistas, escritores, arquitetos, engenheiros, psicólogos (dentre outros) para estimular a produção de várias formas de expressão e inteligência tanto culturais quanto econômicas… bem como a evolução das ideias em produções consideradas por muitos como antecipações do futuro. Dentro de um projeto voltado para uma nova cultura de fábrica, a pesquisa da empresa levou à produção de novos dispositivos tecnológicos que empregavam a fusão de diferentes linguagens e disciplinas, permitindo um processo material de comunicação informado por novos compromissos políticos entre a empresa e a sociedade. Seus produtos e ações podem ser considerados provas concretas dos desejos de desenvolvimento moderno na (re)construção da sociedade italiana do pós-guerra, e consequentemente da produção de novas subjetividades. No entanto, estas inovações tinham também um papel ativo no início dos processos de desmaterialização relativos as relações socioculturais, que abririam caminhos para a ascensão do Pós-Fordismo, das novas condições cognitivas e imateriais de trabalho, quem moldam muito hoje os espaços e a vida contemporânea. O diagrama que segue é um mapeamento parcial (e reinterpretação) que produzi em 2012/2013, organizando esquematicamente alguns dos conceitos, processos, e assuntos que informaram este esforço histórico e tecno-político, assim como suas materializações estéticas.

 

Beto Shwafaty 2019/2020

 

Diagrama_olivetti_lw

Beto Shwafaty Artista e pesquisador cuja prática envolve instalações, vídeos e objetos escultóricos. Utilizando um conjunto diversificado de materiais e metodologias, como o pensamento curatorial, estratégias institucionais, críticas e pesquisas de arquivo, seus projetos são informados pelas noções de apropriação, deslocamentos e tradução, gerando trabalhos que são desenvolvidos ao longo de períodos prolongados de tempo. Em sua prática, ele frequentemente se concentra nas formas como os episódios históricos podem deixar traços na cultura e serem ecoados em objetos, espaços e estruturas socioculturais, que por consequência produzem significados e comportamentos compartilhados publicamente. Neste sentido, ele tem se interessado por assuntos ligados à história, sociopolítica, urbanismo, arquitetura e design, assumindo-os como elementos narrativos e evidências que podem nos informar sobre diversos aspectos contemporâneos. O trabalho de Beto é representado pela galeria Luisa Strina, São Paolo e galeria Prometeo, em Milão.