Pedagogia Crítica

Traplev apresenta um conjunto de obras que se debruçam sobre a experimentação da linguagem para elaboração de elementos pedagógicos que possam também ser instrumentalizados para a conscientização crítica, muitas vezes em forma de instalações, intervenções, objetos e imagens. O artista parte da análise de discursos políticos e midiáticos e do confronto dessas narrativas com fatos históricos e provocações estéticas, para produzir seus trabalhos. Na plataforma Kinoscope, ele apresenta algumas dessas obras, e concede uma entrevista, aprofudnando eixos de sua prática crítica.

 

 

Re-alfabetização política, almofadas pedagógicas Traplev (edição Amílcar Packer), vídeo-slide HD, 23 minutos e 56 segundos, cor, som. 2018/2019

 

O vídeo-slide é um desdobramento da pesquisa para a produção dos conteúdos de uma serie de trabalhos intitulada almofadas pedagógicas, e apresenta uma linha histórica do Brasil partindo do programa pedagógico de educação democrática de Anísio Teixeira e da alfabetização crítica de Paulo Freire, passando pelos conceitos de descolonização de Bell Hocks e Grada Kilomba. (obra comissionada pela exposição “Arte, Democracia e Utopia”, curadoria de Moacir dos Anjos no MAR Rio de Janeiro)

 

 

Arma da crítica/orientação para a prática Traplev (edição Biarritzzz) vídeo-sampler HD 31 minutos e 30 segundos, cor, som. 2019

 

Esse video-sampler (comissionado para a exposição Meta-Arquivo, curadoria de Ana Pato no Sesc Belenzinho) surge da pesquisa de imagens desenvolvida sobre o contexto das organizações clandestinas do Brasil durante a ditadura militar e suas consequências na sociedade. O vídeo foi idealizado para ser veiculado em uma tv plana na posição vertical, configurando uma video instalação.

 

Traplev conversa com Kinoscope

 

Traplev, você poderia descrever rapidamente os 3 projetos que estão em exibição na plataforma?

 

São 3 trabalhos produzidos em ordem cronológica de 2018 a 2020, e todos se utilizam da mídia audiovisual, dois deles funcionam como uma espécie de vídeo-slide, com uma sequência de imagens e legendas + texto e edição visual, ambos são sobre o contexto histórico brasileiro.

 

O primeiro (vídeo-slide do programa Almofadas Pedagógicas 2018/2019) é uma linha histórica do Brasil partindo de Anísio Teixeira e Paulo Freire, pontuando momentos históricos por justiça social do país desde então. O segundo (vídeo-sampler, 2019) é uma pesquisa decorrente da pesquisa anterior, onde encontrei farto material (inédito) sobre as organizações clandestinas dos anos de 1960/70 no Brasil no período da Ditadura empresarial, civil e militar de 1964-1985.

 

O terceiro trabalho é posterior à essas duas pesquisas, e se desdobrou em uma intervenção que estou chamando de “after new deal”, 2020/21 (baseado no contexto econômico liberal americano pós segunda guerra mundial), que é uma série de imagens de três de alguns dos conceitos pilares para, e do, Estado de Bem-Estar Social, Justiça Social e Distribuição de Renda. Esta série que esta em processo, se desdobra até o momento em GIFs animados (aqui apresentados), estampas de camisetas para serem utilizadas em uma ação coreográfica no espaço expositivo, e encontros coletivos de discussões online (que será apresentado ainda este ano em Curitiba), além de outros desdobramentos futuros com as imagens para uma instalação, que estou planejando.

 

Como seus interesses no campo da mídia e da linguagem se relacionam com a materialização de seus projetos?

 

Apesar de trabalhar em um ambiente de sobrevivência mesmo, com pouca infraestrutura de produção, isto é, de não poder provar materiais tecnicamente, ou experimentar montagens espaciais das ideias, o interesse da pesquisa se concentra em um campo bastante conceitual e de pesquisa. O desafio de materializar os projetos é  sempre uma questão a se resolver e que instiga as coisas a  existir.

 

Na maioria das vezes os projetos são elaborados no campo da semiótica, trabalhando os significados, os pontos de vistas,  índices de códigos visuais, e neste sentido a operação acaba sendo muito crua, bidimensional, imagética de signo, de mancha gráfica, de sínteses conceituais para discussão e provocação na esfera pública.

 

justiça social__

Neste contexto o que sempre me puxa, da mera crítica, política e ou ideológica dos assuntos, é a experimentação da linguagem, da imaginação, da relação conceitual e reflexiva das coisas e dos ambientes. Então os códigos, as letras, os números, as manchas, as manchetes, as frases, as imagens, os conceitos, as narrativas, as poesias, as cores, tudo se reúne para re-inventar e propor experiências em delay e sampler.

 

Na atual conjuntura sociocultural do Brasil, como você vê as possibilidades e desafios para exercer uma prática artística que também pressupunha vetores críticos?

 

 Depois de 2016, eu pessoalmente vi ali que o vetor crítico e pedagógico na experimentação da linguagem teria que ser “radical” no que eu fizesse, o estudo sobre a história, os contextos políticos teriam que ser a base para confrontar as narrativas culturais de opressão no século XXI.

 

Estamos presenciando a barbárie com os mesmos dormentes colonial dos séculos de invasão européia do continente, então, pensar essa conjuntura toda, estando no século XXI e convivendo com todas as pautas urgentes de um país e uma sociedade falida, é o que instiga produzir e pensar além do tempo. Registrar o processo histórico para reflexões críticas e de linguagem a serem pontuadas nas próximas gerações, apesar de todas as dificuldades psicológicas e econômicas, para mim é essencial.

 

Fica claro em seus projetos um interesse nos campos da história, da política e da cultura. Poderia compartilhar como ocorre seu processo de pesquisa? E como se relacionam, como no caso desses apresentados agora na plataforma?

 

Então, essa veia no campo da crítica, vem desde o final da graduação em artes plásticas no início dos anos 2000, e depois com a experiência de quase 15 anos com os projetos editoriais e gráficos do recibo (2002-2016).

 

A ideia de colaboração, de pensar a prática artística fora do sudeste, de questionar, de pensar a difusão, a tiragem, o conteúdo, a crítica, a reflexão, foram criando interesses que se convergiram em uma atuação mesmo de criar circuito e de insistir na prática crítica. Tem uma frase do Ronaldo Brito que me identifiquei muito e por isso acho que me influencia nisso que chamo de princípio ativo da prática artística: “forçar os limites da permissividade do circuito é uma das principais tarefas da produção contemporânea de arte”, (Ronaldo Brito, “análise do circuito” Revista Malasartes, 1970).

 

Partindo dessa premissa, os interesses perambulam nesses campos distintos, mas que se reúnem nesse atravessamento experimental da linguagem com o ser e estar no mundo mesmo. Aliar as disparidades através de poesia, através da re-invenção e apropriação da linguagem, é assumir e aceitar os desdobramentos dos processos.

 

Nessa reunião aqui dos três trabalhos no campo do audiovisual, utilizando a técnica do slide com edição de conteúdo + gif, conseguimos ver o caminho dessas leituras possíveis na emergência do período. O momento que estamos vivendo é gritante, e nesse sentido que tento abordar e trabalhar essas questões que me atravessam.

 

estado de bem estar social__1

 

After New Deal [*] Traplev GIFs animados (looping), 2020/2021 em processo.

 

Essa serie de GIFs apresentadas junto a entrevista foi um desdobramento da uma pesquisa desenvolvida por Traplev, evidenciando alguns dos conceitos de economia referentes à política americana do pós-guerra (1945), onde os EUA implantaram o conceito de Estado de Bem-Estar Social, vinculado à teoria de John Maynard Keynes (política economica que ficou conhecida pelo termo “keynesianismo”). O projeto propõe uma discussão ao redor do tema (em projetos ainda em desdobramentos), levantando questões e referências sobre a economia de distribuição de renda e o bem estar social, para além dos preceitos do capitalismo vigente.

 

Acredito que um dos grandes desafios que surgem no exercício de uma prática de arte crítica – e até por que não, também “engajada” – seja como lidar com as contradições entre mercado, instituições, patrocinadores, colecionadores e etc. Em resumo, as contradições que surgem dos jogos e estruturas de poder. Você possui uma leitura parecida, e como você busca equacionar isso na sua prática?

 

Quando trabalhamos  no circuito de arte, não temos como ignorar esses agentes, as instituições, os colecionadores, o mercado de um modo geral, mas a pesquisa como artista é uma demanda pessoal, a produção acontece independente do mercado, e acontece no sentido que se faz para cada um, inclusive muitas vezes até como site-specific, trazendo os pontos críticos justamente no corpo institucional deles.

 

No Brasil, mesmo eu  levando uma vida de sobrevivência sem maiores luxos, sim claro, cada um tem seus privilégios maiores e ou menores, a pesquisa continua na medida que estiver rolando, ou seja, se com mais orçamento ou menos orçamento, ou até mesmo nenhum orçamento para pensar, produzir e se dedicar a um projeto, as coisas acontecem em seu tempo (nesse sentido e no meu caso, a Sé galeria, vem sendo uma boa parceira para poder produzir novas obras e poder seguir nas pesquisas minimamente). Infelizmente o tempo da produção de obras não é a mesma do tempo capitalista, e isso que muitas vezes nos cria dificuldades, e ainda mais pra quem não é herdeiro e ou pintor (risos).

Então não tem uma equação exata, é um samba-jazz (mais pra Hermeto Pascoal mesmo), eu não deixo de pensar e experimentar minha linguagem por causa disso ou daquilo, pelo contrário, tento justamente inserir discussões me apropriando do espaço experimental na esfera pública que o campo das artes visuais disponibiliza, quer em instituições, galerias e ou com colecionadores.

 

“Ah mas é um espaço elitista, de classe alta, neoliberal e muitas vezes até reacionária, etc, etc”, bom todos temos opções e conhecimento de cada área que atuamos, então as pessoas de alguma forma são livres para explorar cada contexto e não só ser explorado como aponta a hegemonia neoliberal hoje.

 

Outro desafio que vejo reside em como lidar com aquilo que nos move, como tratar e se aproximar dos assuntos que nos interessam com o cuidado de não exotizar, não domesticar, não colonizar, não modificar. Você tem uma leitura, a partir de sua prática, sobre essas preocupações?

 

Sim!! Esse é um processo realmente importante, claro que sempre poderão haver desvios involuntários, não estou afirmando que somos perfeitos, mas o cuidado com essas questões é essencial. O processo de descolonização não é algo que acontece do dia para o outro, fomos criados numa cultura usurpadora, opressora, patriarcal, machista, capitalista e todos os etcs. que isso agrega, então praticar o exercício decolonial é realmente vital.

 

distribuicao de renda__gif

 

E acredito que essa é uma deixa justamente rica para o campo das artes visuais, pois o espaço é propício para a re-invenção, para o questionamento. A apropriação precisa ser re-contextualizada sob nosso ponto de vista do privilégio, que é estar no século XXI. Reconhecer o passado histórico traumático dos últimos 5 séculos no Brasil é primordial, Nesse sentido a frase que Fernanda Grigolin propôs para um dos editoriais da publicação A Borda a poucos anos atrás, é pontual: “reconhecer os próprios privilégios é o primeiro passo para entender as desigualdades e lutar contra elas”.

 

A educação é sem dúvida um dos consensos sobre como podemos mudar uma sociedade. Você demonstra um interesse particular sobre o assunto, não somente pela obra “Anti-Monumento a Anísio Teixeira” mas também presente em outros projetos. Como você se aproxima dessa dimensão emancipatória e potente da educação? De uma educação dos sentidos também?

 

Quando aconteceram os eventos de 2016 no Brasil, com o golpe – impeachment sem crime de responsabilidade, todas as fichas caíram pra mim, foi uma sensação de estilhaços, teria que ir catar o que sobrou (pesquisar sobre história do Brasil a partir da ótica de Anísio Teixeira e Paulo Freire), para poder compreender e trabalhar isso aos poucos e em um contexto de médio e longo prazo, porque as coisas não se dão de um dia para o outro, pelo contrário! E esse é o ponto tb das discussões e práticas descoloniais, onde você tem que praticar a crítica e questionar os princípios impostos para seguir.

 

Com isso eu vi que teria que assumir o processo artístico como veia pedagógica, teria que haver uma re-alfabetização geral, descolonial e decolonial, não tinha – e não tem – muita escapatória. Temos um certo desafio e privilégio vivendo aqui no século XXI, (de poder olhar com distância os acontecimentos históricos). A própria história da experimentação da linguagem na história da arte expandida também com o cinema e outras artes, nos mostra que todas as ferramentas para trabalharmos isso estão justamente na linguagem, pelos sentidos e também pela subjetividade!

 

E nesse sentido, quando me aproximei do que Paulo Freire tinha feito, começando pelo Movimento de Cultura Popular (MCP) na gestão de Miguel Arraes em Recife no início da decada de 1960, depois com a experiência da alfabetização crítica e humanizada dos adultos analfabetos, e com a experiência e a implantação do modelo de educação democrática por Anísio Teixeira (Escola Parque Salvador nos anos 1950), e também da própria (utopia da) arquitetura moderna brasileira dos anos 1950/60, eu percebi que ali seria a revolução social – claro, se não tivesse sido golpeada pelos militares – mas falo no sentido de disponibilizar ferramentas aos menos favorecidos para se reconhecer nessa guerra injusta da luta de classes.

 

Nisso o desenho que ficou inédito do público brasileiro (que foi suprimido da edição brasileira[1]), do livro Pedagogia do Oprimido, diz muito sobre isso, exatamente:  

109828010_gt2

Diagrama manuscrito de Paulo Freire. Pedagogía do Oprimido (o manuscrito), org. José Eustaquio Romão, Moacir Gadotti e Jason Ferreira Mafra. São Paulo: Ed. UNINOVE e Ministerio de Educação do Brasil, 2018, p. 32

O vídeo-slide é um desdobramento direto das almofadas pedagógicas (o projeto desencadeador disso tudo de 2016/17), e ali penso que tem todos os princípios, índices e referências para pensar esse processo histórico traumatizado que estamos sendo obrigados a encarar hoje no Brasil. Então com aquela força transformadora que eu vi em Paulo Freire, no MCP, com leituras de Bell Hocks também, entre outras leituras contemporâneas, percebi que aquilo ainda é, e continua fazendo muito sentido hoje, e isso que temos apenas um pouco mais de 50 anos depois.

 

E em Paulo Freire não dá para desvencilhar a linguagem da pedagogia de ensinar, do ato político, ele mesmo fala dessas relações no livro “A importância do ato de ler”[2] de 1982, ele reafirma que vê “a alfabetização de adultos como um ato político e um ato de conhecimento, por isso mesmo, um ato criador” (pag.13), e também aborda essa essência que é a relação da linguagem com a realidade:

 

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto” (pag.9).

 

Lendo e re-interpretando tudo isso, aqui no século XXI, dá uma energia renovadora, pq a linguagem é esse lugar infinito de possibilidades.

 

Notas
[1]
Sobre o assunto acessar: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/estudo-transcreve-manuscritos-ineditos-de-a-pedagogia-do-oprimido/

[2] O livro pode ser acessado pelo link https://educacaointegral.org.br/wp-content/uploads/2014/10/importancia_ato_ler.pdf

 

 

Traplev é artista, bacharel e mestre em artes visuais pelo Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, Florianópolis. Ele foi membro-fundador e editor geral da publicação RECIBO de artes visuais de 2002 a 2015, tendo 18 números e mais de 74 mil exemplares publicados e distribuídos gratuitamente pelo Brasil.