Rasga Mortalha

Rasga Mortalha
Thiago Martins de Melo
Filme em animação stop motion
HD, 16:9,13:50 min, cor, som
2019

Rasga Mortalha A video animação de Thiago parte da lenda da coruja “Suindara” — muito contada no folclore do Norte e Nordeste — para abordar as urgências sociopolíticas do país. Crê-se que o aparecimento de seu vulto branco, seguido do grito selvagem — que lembra o som de um pano sendo rasgado ao meio — traz consigo o signo da morte. Como vetor metafórico para pensar, e também transcender, uma visão fatalista da história do Brasil, o artista se vale dessa tradição popular para cruzar séculos de acontecimentos públicos com memórias, referências e imaginações pessoais, criando uma narrativa carregada e cortante.

O SUINDARA, OS SÉCULOS E OUTRAS HISTÓRIAS
Por Germano Dushá

Rasga mortalha: o grito da coruja afia-se à frente de seu vulto branco. De voo baixo e silencioso, habita a boca da noite. Som de pano sendo esfarrapado, porta consigo mau presságio. 

Reza uma lenda antiga, comum no Norte e Nordeste do Brasil, que uma jovem carpideira (mulheres pagas para chorar em velórios alheios), ao enamorar-se de um moço, foi assassinada a mando da mãe do rapaz, uma rica condessa que fez pouco gosto do romance. Suindara, como era chamada, muito querida por todos, foi enterrada em um belo mausoléu, no qual se esculpiu a imagem de uma coruja branca e corpulenta – à semelhança da falecida. Eliel, seu pai, um poderoso feiticeiro, acabou por desvendar nas cartas do tarô o ocorrido e executou uma magia para se vingar da senhora. Ao realizar o trabalho, penetrou o espírito da filha na estátua que ornava seu túmulo, fazendo com que ela criasse vida própria. O bicho, então, atravessou a aldeia e voou até a janela do castelo onde dormia a mandante do algoz.  Ali piou seu canto, estranho e aterrorizante, que arrepia a espinha, como uma roupa que rompe. Ao amanhecer, a mulher foi encontrada sem vida. Sobre o cadáver, suas vestes de seda jaziam fatalmente rasgadas. 

Crendice certa, a Suindara prenuncia quando alguém está em vias de se finar. Quem a vê sobrevoando as casas logo teme pelo pior. Bom sinal é que não é. Essas aves, como diz o conto de Moreira Campos: “Têm voo brando, impressentido, num cair de asas leves, como num sopro de morte. De repente, dá-se conta de sua presença, das asas de pluma sem ruído. […] Elas rasgam mortalha, agourentas, cortam o silêncio, sacudindo a vigília dos doentes”. 

No filme de Thiago Martins de Melo, Rasga mortalha (2019) [pp. 275-88], o mito em torno da coruja Suindara funciona como disparador, como espécie de vetor metafórico para pensar criticamente e transcender uma compreensão fatalista dos conflitos correntes na história do Brasil. Entre um céu caído e uma terra que ainda colhe grandes os frutos nefastos da escravidão, deixa claro os assombros que acompanham os subjugados e os que se opõem àqueles que se pretendem donos do chão. O risco é iminente. A sombra da morte, a todo instante, se faz presente. 

A rasga mortalha anuncia a hora do crime. O segundo em que se faz ver, no horizonte do mar vasto, a imagem impossível das caravelas ou, nas esquinas apertadas das favelas, a lataria terrível dos caveirões. Diz quem é o “Cabra Marcado para Morrer”, cada vez que as foices irão descer, na esteira das cruzadas e inquisições. Neste estado de exceção, a serviço de uma economia das crises e da gestão de escassez, o grito da morte está na manutenção da abissal desigualdade; na varredura do contraditório a golpes de cassetete; nas panelas que batem em bairros nobres, ruminando, saliva de sobra, o anti-intelectualismo ávido e desumano, o conservadorismo medieval. Está na normatização acachapante organizada para erradicar as formas de vida. Sob a escola dos tiranos em solos tropicais, apita a soberania daqueles que ditam “quem pode viver e quem deve morrer”, manifestação máxima do poder – bem articulado, engravatado, mesmo quando não. 

Feito a partir de milhares de pinturas e desenhos, o curta-metragem em stop motion reúne arquejante um amontoado de referências e eventos históricos. Em sua gênese, encontramos dos versos de Gonçalves Dias à lâmina ligeira de Tuíra Kayapó; do conceito de necropolítica, cunhado pelo camaronês Achille Mbembe, ao messianismo verborrágico de Glauber Rocha; da mitologia tupinambá à atual luta dos Gamela no Maranhão; da literatura de cordel aos panfletos revolucionários; de Canudos e Contestado às ocupações urbanas; dos rituais xamânicos às guerrilhas latino-americanas; da memória de Dina do Araguaia às metamorfoses do Subcomandante Marcos.

Com o pulso da tradição popular, o artista contorce os séculos, atracando-os entre si, comprimindo-os até se banharem com as cores mais fortes uns dos outros, de modo a confundirem-se numa voragem que faz rodopiar “as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas”. Num só tiro alucinado vamos da pedra à democracia, da colônia às grandes cidades, das bandeiras à Brasília. E tudo isso entre questões públicas e dramas pessoais, acesso e revolução, tesão e tanatologia, pajelança e submetralhadoras, danças e decapitação. 

Anacrônico, barroco e catártico, joga violentamente com inúmeros episódios e signos, redistribui papéis e protagonismos, evoca diversas vivências, visões, práticas e pontos de vista. É quando a epistemologia canônica se dobra, expõe suas fissuras, fazendo emergir novos atores, novas histórias, ou melhor, tornando possível que assumam seus devidos lugares, conforme correm os desejos. No que conta o caso, opera por muitos eixos, não se deixa conduzir por uma única e linear sucessão dos fatos. É divergente, abre dissenso. Do fluxo narrativo escorre uma cosmologia colérica: ao som de tambores e fuzis, uma multidão de gestos jorra para abordar a brutalidade material que desnuda a crueza da vida, mas também para falar dos transes e transcendências que apontam para o infinito. Pensa-se com a cabeça, com a cintura, com o cu. É tudo o tempo todo e ao mesmo tempo. É a biologia por toda parte, os impulsos fisiológicos, os estados de espírito. 

No centro estão os camponeses, os índios, os quilombolas, os sertanejos, os favelados, os imigrantes, os homossexuais, transexuais, os artistas e todos aqueles aos quais não são permitidos espaços ante um projeto único e totalizante de estado-nação. Se sofrem com contínuas investidas genocidas, não deixam de firmar ponto comum na energia universal que mobiliza os levantes do povo, as escolas da rua, as práticas da floresta, os esoterismos cotidianos, os gêneros e sexualidades desviantes, sempre prontos para vir à tona de diferentes formas, em diferentes lugares e a qualquer instante. Se há combate, há potência para se viver livremente: arte, comunidade, misticismo, ritual, torso descoberto, sexo com beijo, com abraço, com mijo. A “retransfiguraçãoétnica”, o devir-animal e a antropofagia do mestiço que virou índio, do sujeito que virou onça e que agora saboreia uma perna, depois um pé, um braço. Do homem barbudo com seios e vagina, da mulher com seios e pênis, ambos se comendo um ao outro.

As figuras, os garranchos e os verbos formam clarões oníricos que fazem desvelar toda a historiografia da humanidade numa batalha épica, num gole de seiva ou num banho de rio. Como as cosmovisões e estratégias de jogo que nos fazem encarar nos olhos a miséria humana, mas que trazem juntamente o ímpeto absoluto e contínuo que alimenta as resistências. Diante da guerra e da razão, faz-se festa e imaginação. “O sonho é o único direito que não se pode proibir”, e o mundo é mesmo dos tenazes, daqueles que insistem em experimentar sua liberdade. Que se fale, então, “de sexualidade, de respeito, de laicidade, de racismo, de LGBTfobia, de machismo. Pois falar sobre esses temas é se comprometer com a vida em suas múltiplas manifestações”.

Tudo é emergência, é ocasião. E o momento ético é decisivo. Faz ressoar a fala de Hélio Oiticica, comentando seu Bólide em memória do amigo Cara de Cavalo, procurado por crimes audaciosos e assassinado pela polícia no Rio de Janeiro: “Esta homenagem é uma atitude anárquica contra todos os tipos de forças armadas: polícia, Exército etc. […] pois reflete uma revolta individual contra cada tipo de condicionamento social. Em outras palavras: violência é justificada como sentido de revolta, mas nunca como o de opressão”. Faz zunir o Negro drama dos Racionais MC’s: “Olha quem morre/ Então veja você quem mata […] Eu era a carne, agora sou a própria navalha”. O que oprime deve aguardar o seu contraponto, leis injustas devem ensejar as desobediências, e as tiranias que submetem devem esperar corpos insubmissos. É das insurgências e reinsurgências que virá o golpe principal, messiânico, radical.

Rasga mortalha: o espectro alvo da coruja traz no rastro o berro estridente. Quem viu e ouviu já sabe: o óbito logo vem. Suindara apavora o olho, dói o ouvido, implacável agouro, corta o pano do febril. Carrega em si o signo da morte. O corpo é tomado por inteiro. Paroxismo final, êxtase maior. A respiração acelera, ofega, arde no peito. Os braços se atêm ao tronco. Mãos retorcidas nas costas, coluna inclinada. O apocalipse faz a curva. O indivíduo no limite responde: todo dia é dia, e cada vitória conta. Enchem-se os pulmões para declamar mais alto que o anúncio da coruja, em contrafeitiço, os versos do poema atribuído a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião: “Meu rifle atira cantando/ em compasso assustador/ Enquanto o rifle trabalha/ minha voz longe se espalha/ zombando do próprio horror”. Ou o que salta à garganta de I-Juca-Pirama, que ao se deparar com a ceifa se permite chorar, se necessário guerrear e, quando for a hora, ser digno de morrer: “Meu canto de morte,/ Guerreiros, ouvi:/ Sou filho das selvas,/ nas selvas cresci,/ Guerreiros, descendo/ Da tribo Tupi […] Guerreiros, nasci:/ Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte;/ Meu canto de morte,/ Guerreiros, ouvi”. A morte como morte e a morte como vida. Nenhum sangue escorre em vão: morre um, nascem dois. É a morte que irriga o chão.

Thiago Martins de Melo Mestre em Psicologia – Teoria e Pesquisa do Comportamento pela Universidade Federal do Pará (UFPA-PA), trabalha com pintura, escultura, instalação, animação em stop motion e gravura.

Germano Dushá é escritor, curador, crítico e produtor cultural Brasileiro, co-fundador do Coletor, Observatório, Banal Banal e Um Trabalho Um Texto.